Artigos de Gestão

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20
SET
16

Sobre Dalai Lama e nós, nas empresas



 



Assim como muitos, eu já tinha ouvido falar do Dalai Lama, mas sabia quase nada. Há pouco tempo me interessei de verdade por ele e, buscando também ampliar meus limitados conhecimentos de geopolítica, vi um pouco da história. Além de líder espiritual budista, Dalai Lama é um exilado político que mora na India. Ele continua na luta pela independência de seu país, o Tibet, que pertence à China desde 1950. A China não permite hoje que nenhum país, nem os EUA, interfira no tema Independência do Tibet. E quem se atreve a bater de frente com a China e seu enorme poder econômico? Só mesmo o Dalai Lama. Mas o que mais me surpreende é como o Dalai Lama bate de frente.  Este artigo é sobre o que podemos aprender, para aplicar em nossas vidas pessoais e nas empresas.

Dalai Lama fala de paz, harmonia, caminho do meio, conciliação. Não usa ou incita nenhum tipo de violência, nem a verbal. Em tempos de arroubos emocionais no Congresso e Senado do nosso país, é um alento ver que é possível lutar com sabedoria e compaixão, até mesmo contra a China. Seria possível lutarmos assim nas nossas minúsculas batalhas diárias?

E
le diz que, a curto prazo, a violência pode sim conquistar algo importante. Mas o fruto da conquista pode ser destruído rapidamente, e ele quer algo sustentável, uma solução duradoura e pacífica. Ouso discordar quando leio sobre a independência de muitos países conquistada com sangue. Mas concordo que uma solução  pacífica constrói pontes.
Em nosso mundinho corporativo, nem sempre conseguimos pensar a médio prazo, queremos tudo e hoje. E invariavelmente pagamos um preço alto no dia seguinte, ou nos anos seguintes.
É quando tentamos neutralizar quem parece ser melhor que nós, para nos sentirmos seguros, e pode até ser que consigamos a promoção antes dele.
As melhores conquistas, as que valem a pena, só vêm como resultado da colaboração, do conhecimento, da disciplina e do bom humor.

Aprendi que Dalai Lama usa aquele manto amarelo e vermelho para simbolizar, respectivamente, a sabedoria e a compaixão por todos os seres. Compaixão por todos, não só pelos iguais, pelos que têm a mesma religião, pelos que pensam como ele. E ele diferencia perdão e compaixão, algo que eu  não sabia (como tenho a aprender). Quando perdoamos, nos colocamos acima da pessoa perdoada, nos sentimos superiores, capazes de um gesto tão bonito que é perdoar aquele que erra.
"Parece suficiente e nem isso conseguimos algumas vezes. Mas todos nós, que já perdoamos alguém e nos sentimos superiores por isso, sabemos que este perdão pode ser mais uma armadilha da vaidade e da arrogância. A compaixão é a compreensão profunda de que todos nós somos falíveis, cometemos os mesmos erros ou até outros piores que aqueles que julgamos. E, por isso, está tudo certo, é só uma questão de tempo – ele erra, eu erro, nós todos erramos.

Ele diz: "Quem somos nós para julgar, condenar ou até perdoar?  Está tudo certo." Mundo lindo este que o Dalai Lama prega, né?

Vale tentar, no nosso mundinho, realizar o exercício diário de nos percebermos maravilhosos e também cheios de falhas. E, por isso, tentar contribuir sem julgar, ensinar sem “se achar”, pedir ajuda sem se constranger, pedir desculpas sem se considerar incompetente, corrigir sem destruir o outro.

Mas vamos voltar ao manto vermelho e amarelo. Não é só vermelho, porque ele diz que se você tem só compaixão, pode virar um bobão (ok, esta rima pobre é minha e não dele).

Junto com a compaixão, temos de desenvolver a sabedoria, simbolizada pela cor amarela. Sabedoria sem compaixão nos deixa arrogantes, achando que descobrimos o “verdadeiro caminho”, o que quer que isso signifique.

Paixão e sabedoria no dia a dia.  Sem se alienar, apesar dos enormes esforços da sociedade para nos encantar e viciar em ida a shoppings, caça a Pokémons e dez séries simultâneas no Netflix. Tudo assim mesmo, em excesso, como prega a regra básica do consumismo.
Descobrir que um pouquinho pode ser tão bom! Mas o excesso, quando estamos viciados e nem percebemos, nos tira o tempo precioso para conquistas e contatos que nos levam à felicidade verdadeira, aquela que vem das coisas relevantes.
E, quando estamos viciados, nem prazer temos, fazemos no automático. Que hábito nocivo podemos tentar diminuir, dando espaço para hábitos saudáveis e sustentáveis? Que pensamentos? Que omissões? Que ações? Reações?

Gosto deste caminho do meio pregado por ele. Nada a rejeitar! Que venham os Pokémons, as séries, as redes sociais e os shoppings! Mas que venham também as meditações, as reflexões sobre nosso comportamento, a
 disciplina, o querer ser melhor, a descoberta de prazeres não materiais. E como o dia só tem 24 horas, diminuiremos o que é irrelevante.

Que em nossas empresas tenhamos sabedoria e compaixão. E que sejamos guerreiros, lutando sem nos acomodar pelo que acreditamos – mas sempre em paz.


Escrito por Rosangela Souza. Publicado em 16 de setembro de 2016 na Revista Catho - Carreira & Sucesso
. Editado por Rosangela Souza para o site da Companhia de Idiomas - Artigos de Gestão.

 

Rosangela Souza é fundadora e sócia-diretora da Companhia de Idiomas e ProfCerto. Graduada em Letras e Tradução/Interpretação pela Unibero, Business English na Philadelphia, USA. Especialista em Gestão Empresarial com MBA pela FGV e PÓSMBA pela FIA/FEA/USP.  Desenvolveu projetos acadêmicos sobre segmento de idiomas, planejamento estratégico e indicadores de desempenho para MPMEs. Colunista do portal da Catho Carreira & Sucesso, RH.com e Exame.com.   Professora de Técnicas de Comunicação, Gestão de Pessoas e Estratégia na pós graduação ADM da Fundação Getulio Vargas/FGV.

 

 

20
SET
16

Sobre a depressão e a euforia de cada dia



 



Em poucos meses, acompanhamos as Olimpíadas, Lava-Jato, saída da Dilma, reforma fiscal, saída do Eduardo Cunha, 11% de taxa de desemprego, mais Lava-Jato, terrorismo, queda do dólar... E muitos de nós estamos oscilando entre depressão e euforia diariamente.

Nas empresas e em nossa vida pessoal, é a mesma coisa: medos e esperanças. Medo de ser demitido, perder aquele cliente importante, ser substituído pelo garoto que fala inglês fluentemente, não vender nada neste mês. Esperança de tudo melhorar agora, depois das Olimpíadas, e depois de organizarem a bagunça política e econômica no Brasil.

Ouvimos que devemos nos preparar para o pior, mas sempre esperar pelo melhor.  Há pessoas investindo, mesmo que só um pouquinho, em algo que as torne profissionais mais qualificados. Ajuda a diminuir os medos.

Conheço alguns - admiráveis - que encontraram outra forma de apaziguar diariamente as emoções extremas, exercitando o olhar para encontrar a "flor de lótus no meio da lama". Eles se perguntam constantemente: "O que tem de bom nesta situação ruim?" 
"O que estou aprendendo?"  "Como evito isso no futuro?"  "Será que fui eu que causei?"   E na hora do sucesso, quando "nos sentimos o máximo", eles exercitam a humildade e a compaixão. Parece aula de catecismo, mas acho que muitos de nós - eu, inclusive - estamos no nível básico das duas lições.

Quanto mais vivemos, mais experientes somos, mais nos especializamos em encontrar as gotinhas de lama no meio do lindo jardim. Desenvolvemos aquele olhar treinado para encontrar erros e inadequações, e isso pode nos cegar para o belo, intensificar nosso estresse e infelicidade, e, comprovadamente, degenerar nossa saúde física e mental.

Continuo sócia e diretora da Companhia de Idiomas, trabalhando em tempo integral para a empresa que fundei e que amo, mas há quatro meses estou morando em Canela (aquela cidadezinha bonita ao lado de Gramado, na Serra Gaúcha), depois de nascer e viver por 47 anos na cidade de São Paulo. Essa mudança me fez notar minha cegueira, entre tantas coisas que uma mudança causa. Um lugar lindo, uma natureza maravilhosa - e eu percebo que de vez em quando caminho olhando para baixo, revoltadinha com um lixo encontrado aqui e ali, na calçada. Estou ainda aprendendo, humildemente, a recolher o que posso e - o mais difícil - a não julgar quem jogou. Não aprendi ainda, mas gosto de tentar.  Aprender a levantar a cabeça e olhar o belo que me cerca, me importando menos com o que me incomoda.  E a não querer necessariamente mostrar nas redes sociais o que vivo. O velho exercício de só ver, viver e sentir mesmo.

Normalmente vejo que priorizamos o circunstancial, e negligenciamos o permanente. O lixo é circunstancial e pode ser retirado com um gesto rápido. A natureza pode ser permanente e deve ser admirada e internalizada. O (des)emprego é circunstancial,  uma vida produtiva é mais permanente. Uma rede social é circunstancial e vai sendo substituída por outra, a capacidade de olhar e sentir deve ser permanente.

Para isso, precisamos todos de um pouco de silêncio, para descobrirmos a terceira margem do rio, brilhantemente descrita por Guimarães Rosa. Só no silêncio, tão raro, conseguimos refletir sobre nossas ações, reações, omissões e histerias diante das nossas vidas incertas.

 

Escrito por Rosangela Souza. Publicado em 29 de agosto de 2016 na Revista RH.COM. Editado por Rosangela Souza para o site da Companhia de Idiomas - Artigos de Gestão.
 

Rosangela Souza é fundadora e sócia-diretora da Companhia de Idiomas e ProfCerto. Graduada em Letras e Tradução/Interpretação pela Unibero, Business English na Philadelphia, USA. Especialista em Gestão Empresarial com MBA pela FGV e PÓSMBA pela FIA/FEA/USP.  Desenvolveu projetos acadêmicos sobre segmento de idiomas, planejamento estratégico e indicadores de desempenho para MPMEs. Colunista do portal da Catho Carreira & Sucesso, RH.com e Exame.com.   Professora de Técnicas de Comunicação, Gestão de Pessoas e Estratégia na pós graduação ADM da Fundação Getulio Vargas/FGV.