Artigos de Gestão

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03
SET
15

Workaholics: solução para a empresa em crise ou desafio para o RH?



 


Um workaholic, como o próprio nome diz, é viciado em trabalho, geralmente adora o que faz, exatamente como aqueles que amam ficar quatro horas na academia todos os dias ou jogar videogame a madrugada inteira. O workaholic, embora muitas vezes valorizado pela família, empresa e sociedade, tem um problema. Mesmo que diga que está bem, que está no controle, que isso não é vício e que pode parar a hora que quiser.  

Para a empresa, ele parece ser o funcionário ideal, pois tem prazer em virar a noite naquele projeto urgente, geralmente é super eficiente, perfeccionista e exigente consigo mesmo e com os outros. Ou seja, ele puxa todo mundo para cima, estabelecendo um ritmo e parâmetro de eficiência quase que inatingíveis.  

Em tempos de crise, quando as empresas estão tendo dificuldades para pagar seus funcionários, ter um que vale por dois parece ser a estratégia perfeita.  

Só que não é.  

Todos os vícios têm como raiz aquela sensação profunda de vazio, um anseio enorme por algo que não se sabe o que é, e um grande prazer durante a execução de uma determinada tarefa. Qualquer atividade que amamos fazer nos traz segurança, um alento, momentos de felicidade pura, por isso vira um hábito facilmente. Em um mundo cheio de angústias, queremos sentir aquela coisa boa de novo, e de novo. Aos poucos, começamos a exagerar e depois a atividade nos domina, causando todo tipo de problema.  

No entanto, nem sempre o profissional que trabalha demais o faz porque quer, ou porque é viciado em trabalho. Ele pode estar se sujeitando a uma carga horária excessiva imposta por sua empresa. Ele é vítima? Não, pois isso é escolha.  

"Você não entende, eu TENHO de trabalhar neste lugar, porque ganho bem".  

O bairro e a casa onde moramos, o carro que temos, o número de viagens. Dizem que nós somos o que fizemos do que fizeram de nós. Ou seja, podemos escolher trabalhar em outro lugar, ganhar e gastar menos, se quisermos. Ou não!  

Ser workaholic não tem nada a ver com trabalhar muito na semana de fechamento do mês na empresa, no mês em que o colega está em férias ou porque se tem uma apresentação importante. Aqui estamos falando do excesso de trabalho permanente.  

Como o workaholic afeta sua própria vida profissional?  

Por mais que as empresas gostem de profissionais que trabalham muito, a médio e longo prazo este não é o profissional que mais contribui na hora de vencer os verdadeiros desafios da empresa. Primeiro, o profissional constata que a razão de sua infelicidade e doenças é a empresa (e não é, pois é sua escolha). Aí este sentimento nocivo o mantém super eficiente, mas altamente irritado, fazendo com que ele não se relacione bem com as pessoas, o que o faz perder oportunidades. E sua irritação aumenta, pois ele também começa a cobrar da empresa a contrapartida do que ele dá - e obviamente a empresa não vai reconhecer tanta dedicação na mesma proporção. Aí ele se desmotiva profundamente, e pode até iniciar uma pequena sabotagem. E ninguém entende como que aquele funcionário tão dedicado se virou contra a empresa, e contra ele mesmo. Parece familiar?  

Outro fator é que um profissional não pode ser só eficiente - realizador compulsivo de tarefas. Hoje ele tem de ser eficaz. E a eficácia está atrelada a resultados, que quase sempre são conseguidos com criatividade, relacionamentos fora do ambiente de trabalho, capacidade para inovação disruptiva que só se consegue quando você tem uma visão mais ampla do mundo: quando você brinca como criança, vê uma exposição de arte, viaja livremente, vai a uma festa sem querer fazer networking ou falar de trabalho. Quando você enxerga e aprende com o mundo. Um workaholic costuma ser monotemático ("meu chefe", "meu funcionário", "minha empresa", "meu cliente", "o mercado") - e isso o emburrece. Aos poucos, ele é superado por gente que adora trabalhar, mas também tem outros interesses e prazeres.  

Como ele afeta a sua vida pessoal?  

A família, por sua vez, começa a cobrar do workaholic a sua presença em casa. Começam as desavenças diárias, que contribuem para o sentimento de que "está tudo errado". O alento é o trabalho. A pessoa está na festa do filho, mas continua pensando e falando só de trabalho.  

Já sabemos que a maioria das doenças está relacionada ao estresse. E o estresse está intimamente ligado a esta equação: o que importa para você - onde está a sua atenção = seu estresse.  

Por exemplo: se ética importa para você e você precisa abrir mão dela para se manter no emprego, é provável que aos poucos você fique irritado com sua vida, com você, com todos ao seu redor. A dissonância entre o que se é na essência e o que você se tornou sempre se traduz em estresse, que vira infelicidade, e em seguida, doença.  

Gandhi já dizia: "Um homem não pode fazer as coisas certas em um departamento de sua vida enquanto erra em qualquer outro. A vida é um todo indivisível".  

E mesmo que não sejamos viciados em trabalho, podemos ter problemas semelhantes ao dos workaholics. Nosso corpo e mente não foram feitos para este tipo de vida que estamos levando. A mídia nos fez acreditar (porque nós permitimos) que praticidade é coisa boa. Então, não nos movimentamos mais (porque há equipamentos para tudo), a comida é super prática (mas nada nutritiva), as relações são virtuais (porque se encontrar pessoalmente dá trabalho), as viagens e os encontros são basicamente para tirar fotos e postar (porque só contemplar e curtir agora é pouco). A sensação de que todos têm uma vida mais bacana que a sua, potencializada pelas redes sociais, também nos deixa um pouco pra baixo todo dia. O fato é que nossos corpos descansavam mais e nossas mentes desaceleravam. O silêncio fazia parte da vida, hoje é um recurso escasso.  

Temos alternativas?  

Se você é profissional de RH, imagino que todas estas questões estejam no seu radar. Já percebeu que oworkaholic é uma solução em curto prazo, mas trará tantos problemas em médio prazo, que não vale a pena incentivá-lo. Ele precisa de ajuda.  

É louvável o esforço para implantar horários mais flexíveis, fugindo da burrice de fazer todos cruzarem uma cidade no mesmo horário. A tentativa de home office para alguns cargos também tem contribuído - mesmo com tantos desafios. A tecnologia já nos ajuda muito. Fazer uma reunião por Skype ou outras plataformas, evitando viagens e deslocamentos é um dos grandes ganhos. Mas isso não quer dizer que trabalhemos menos, pode até significar o contrário.  

Temos de mudar o paradigma - como empresa e como funcionário. Não vejo problema em trabalhar por uma hora de casa, se você saiu mais cedo para evitar o trânsito e foi direto para a natação. Brincou com seu filho e depois se conectou novamente - desde que não se empolgue com as falsas urgências e perca a noção da hora. 

Assim como um malabarista com pratos, o segredo não é o equilíbrio, porque ele não existe, já que todos os pratos estão quase caindo. O segredo é diminuir o número de pratos, deixando só os que você realmente importam. E para eles, atenção e carinho constantes. E se por acaso algum cair no chão, não se torture - pegue rapinho, sem deixar cair os outros. E nunca tenha pratos demais, nem vicie no malabarismo.


Rosangela Souza é fundadora e sócia-diretora da Companhia de Idiomas e ProfCerto.Graduada em Letras e Tradução/Interpretação pela Unibero, Business English na Philadelphia, USA.
Especialista em Gestão Empresarial com MBA pela FGV e aluna do Pós-MBA da FIA. Desenvolveu projetos acadêmicos sobre segmento de idiomas, planejamento estratégico e indicadores de desempenho para MPMEs. Colunista do portal da Catho Carreira & Sucesso, RH.com e Exame.com.   Professora de Técnicas de Comunicação, Gestão de Pessoas e Estratégia na pós graduação ADM da Fundação Getulio Vargas.

01
SET
15

Fracasse cada vez melhor



 


Quando ouvi esta frase recentemente pensei: “Mas que p… isso quer dizer?”. Vejo que o mundo ainda considera quem tem ou parece ter fama e dinheiro como uma pessoa “superior”. É por isso que somos facilmente enganados por políticos que aparentam ser bons e inteligentes, por empresários que parecem bem-sucedidos, atores ruins que estão sempre na mídia.

Ainda ouço pessoas se referindo a outras como se elas de fato fossem melhores por conta da empresa famosa onde trabalham, a profissão que têm, o bairro onde moram.  Fui a um aniversário de um amigo e ele me apresentou as pessoas assim:  Este é o João, diretor da Nestlé. O José, gerente de criação no Google. E por aí foi. Era só um aniversário, precisa mesmo ser assim? Quando essas coisas nos definem e as perdemos, o peso da perda é enorme.

Em uma sociedade onde o bairro, o carro, marcas e empresas são nossos sobrenomes, as imperfeições continuam sendo escondidas, mentiras são contadas para se parecer perfeito, falhas são disfarçadas. O que não dá status nem é mencionado. Redes sociais são a nossa revista Caras particular: olhem para mim naquele lugar bacana, vejam o que ganhei do meu namorado perfeito, curtam o que comprei, admirem o quanto tenho lindos amigos e família sensacional. Qualquer coisa que se faz tem de virar um post, desde que este reforce o status atual: “vivendo uma vida perfeita”.  As pessoas têm cada vez mais medo de não parecerem que estão bem diante dos outros e, por isso, sentem uma necessidade, quase que primária, de mostrar o quanto são felizes e  o quanto fazem coisas legais.  Viver agora requer registro e post?

Me pergunto onde está a vida imperfeita de cada dia?  Como e onde podemos mostrar o que realmente somos, seres imperfeitos, com vidas imperfeitas? Entendo que não é na rede social, mas se temos reforços positivos pela felicidade que postamos – por contraste a tendência é nos envergonharmos das imperfeições, não?

Acho que podemos colocar esta reflexão em prática, com duas ações simples e, ao mesmo tempo, muito relevantes nesta jornada de aprender com a vida.

1. Percebeu que comeu bola, algo deu errado, a vida não está sendo como planejou?  Não coloque a responsabilidade nos outros – fazemos isso quase que automaticamente:

“Mas foi o sistema operacional (e você não conferiu) ”.

“Mas foi ele que não me disse” (e você também não perguntou).

“Fui demitido, mas não tive culpa, foi a crise” (mas você desperdiçou oportunidades dizendo que não tinha tempo) .

Enquanto não conseguirmos dizer:  “comi bola e a responsabilidade parcial ou total é minha”, você não melhora em nada.

O que vai ajudar na jornada é mudar nosso padrão mental para acolher as falhas, resolver problemas, e admitir as imperfeições, ao invés de rapidamente encontrar culpados e não fazermos nada para melhorar, já que somos perfeitos. Os problemas voltam e se acumulam, quando não há aprendizados.

2. Não foi bem em algo e terá nova chance?  Não deixe a frustração e o medo de falhar de novo serem maiores que sua fé, seus sonhos, ou sua necessidade.  Esse medo de falhar de novo paralisa, e, pior, faz a gente escolher atalhos:

“Não vou nem tentar aquele vestibular, porque se eu não passar, fico mal diante da família, já que meus primos passaram”.

“Não vou buscar outro emprego, porque aqui estou seguro. Vai que eu mudo e não dá certo, como vou justificar? Melhor ficar por aqui mesmo”.

Pior do que não obter êxito é nem ao menos tentar. Erros são bons professores e não carrascos.

Talvez o maior exercício seja desenvolvermos uma visão mais contemplativa da vida.   O professor de yoga que nos atende na Companhia de Idiomas sempre diz, no meio da aula: não se apegue a sensações agradáveis (para não viciar nelas, talvez)  e não tenha repulsa a sensações desagradáveis (elas podem ser a fonte que precisamos para crescer).

Faz sentido para você como faz para mim? Vamos continuar o tema no próximo artigo!

Rosangela Souza é fundadora e sócia-diretora da Companhia de Idiomas e ProfCerto.Graduada em Letras e Tradução/Interpretação pela Unibero, Business English na Philadelphia, USA.
Especialista em Gestão Empresarial com MBA pela FGV e aluna do Pós-MBA da FIA. Desenvolveu projetos acadêmicos sobre segmento de idiomas, planejamento estratégico e indicadores de desempenho para MPMEs. Colunista do portal da Catho Carreira & Sucesso, RH.com e Exame.com.   Professora de Técnicas de Comunicação, Gestão de Pessoas e Estratégia na pós graduação ADM da Fundação Getulio Vargas.